Memórias do Calabouço

Apresentação de Eduardo Galeano para a edição em português.

Uma vez, durante esses longos anos, eles puderam se olhar no espelho: viram outro. Magros como “faquires”, esmagados pela tortura incessante, os “reféns” da ditadura militar uruguaia foram de quartel em quartel, condenados à solidão de masmorras um pouco maiores que um caixão. Eles nem podiam falar com as coisas. Não havia coisas nas celas, não havia nada. Eles dormiram no chão de concreto congelado, assustados com o barulho de barras ou botas que anunciavam uma nova rodada de tortura. Às vezes eles não recebiam água e bebiam a própria urina. Às vezes, lhes era negada a comida e comiam moscas, vermes, papéis, terra. Às vezes acontecia um milagre: uma rajada de ar fresco trazia um aroma de laranja através de algum buraco na janela fechada com tábuas; ou através do pequeno buraco entrou um pequeno inseto ou uma pena de pássaro. E, às vezes, uma mensagem do prisioneiro vizinho ressoava na parede: uma mensagem dita com os nós dos dedos.

Este trabalho celebra uma vitória da palavra humana. Dois dos “reféns”, Mauricio Rosencof e o “Ñato” Fernández Huidobro, evocam nestas páginas sua experiência naquele reino de silêncio e terror. Eles contam como conseguiram salvar sua condição humana, capturados na vida “como hera na parede”, contra um sistema que queria deixá-los loucos e transformá-los em coisas.

A comunicação, alcançada por um código morse improvisado, era a chave para essa salvação. Bateram os dedos e recuperaram o direito negado à voz: através da parede, encorajaram e confortaram, discutiram, compartilharam experiências e ilusões, pessoas e fantasmas, memórias e sonhos. Aquela música de bateria, aqueles barulhos humildes, era a melhor sinfonia de Beethoven; neles ressoava a maravilha do universo. Boca proibida, dedos falaram. Eles falavam a verdadeira língua, que nasceu da necessidade de dizer.

O encontro entre Mauricio e o “Ñato” através do muro não apenas revela a força da dignidade e o poder astuto de nossos presos políticos: esse incrível diálogo é também o símbolo mais preciso do fracasso de um sistema que desejava transformar todo o Uruguai em um país de surdos e mudos.