Capítulo 1 – Canção e Fim

Onde Arvo encontra uma fada e um condão, mas não um porco.

Há três maneiras de iniciar uma aventura e, seja por vantagem ou obstáculo, são exatamente as mesmas maneiras de se viver uma vida: por acaso, por escolha e por destino. Em muitos casos é a mistura dos três, e foi assim que aconteceu com Arvo de Poça-Perto.

Mas nos adiantamos.

E de que nos serve pressa? Mesmo se chegássemos na metade, ainda assim a jornada seria longa; que então possamos aproveitar as coisas pelo seu começo, em um lugar que é o fim de muitos: Arvo dirigia-se ao cemitério.

Cada povo, por afeto, respeito ou tédio, acaba por colecionar muitos mimos e detalhes na sua reverência aos mortos. Mas, com Arvo ainda longe, permitimo-nos comentar que o cemitério de Poça-Perto poderia se beneficiar de mais inspiração — o sítio era simples e sóbrio, quase perdido no topo de colina, rocha e bosque da região, tão-só vigiado por alguns quernes.

“Querne”, devemos dizer, é o nome que se dá ao monte de pedras deliberadamente empilhadas umas sobre as outras, com variados tamanhos e finalidades: marcar trilhas, avisar perigos, esconder suprimentos. No cemitério, os quernes serviam para indicar a sepultura dos entes passados, e era dali que Arvo já se aproximava.

Ele venceu os últimos aclives da trilha-pequena, caminhou até uma placa de pedra vincada, deixou sobre ela um pedaço de pão e alguns goles do licor que trazia, começou e terminou uma breve canção — e não será irrazoável entender que Arvo estava oferecendo respeito aos seus antecessores.

Foi então que ouviu uma voz sussurrada e próxima: «Löyly, quês-quais qu’estás a fazer?»

Era uma figura como a de uma pessoa, mas cinza e pequena, com não mais do que um braço de altura e a dois de distância. Seus traços e trapos não diziam homem ou mulher — nem humano, nem criança —, seus longos braços e dedos pareciam sempre estar prestes a capturar algo, e os olhos em sua face cavavam duas órbitas vazias.

A quem estamos tentando enganar? Era um háltia dos mortos. Não bastasse isso, era um háltia curioso, sorrindo com mais língua do que dentes.

Arvo assustou-se, e com razão — não era comum que humanos enxergassem háltias, esses espíritos que compõem e residem em todas as coisas e lugares. Teve de pensar no significado do que enxergava antes de pensar no significado do que ouvira, e por pouco se esqueceu de responder: «Eu… estou oferecendo a minha lembrança aos antigos.» E ponderou e acrescentou: «Vou iniciar uma jornada.»

«Uma cá-jornada!», teriam brilhado os olhos, se os tivesse. «E d’alguém que honra as velhas tradições, não menos.» Não demorou muito até que o háltia se apresentasse: «Chamam-me Chapéu-de-Camundongo», e está claro que quem parabeniza regramentos se nomearia com qualquer pompa e circunstância.

Uma vez apresentados, o homem e o háltia trocaram opiniões sobre as ofertas mais apropriadas para angariar boa sorte em viagens longas. Bebidas servem para afastar perdas recentes; comidas, para manter conquistas duradouras; ou era o contrário? Na dúvida, Arvo havia trazido e oferecido ambos.

Provavelmente, concluíram, os antepassados se agradariam com qualquer caneca, desde que brindados com boas intenções.

E porque Arvo era de personalidade fácil, não demorou muito até que o háltia cedesse: «Tens o meu feitio, porqualtanto uma prenda.» Com isso, Chapéu-de-Camundongo revelou e ofereceu ao rapaz um bastão maciço de palmo-e-meio de metal enferrujado, opaco, escuro.

Não era presente de um estranho se ele já havia dito o seu nome, era? Aliás, que espécie de nome era aquele? Camundongos sequer usavam chapéus.

«Esta é uma lucerna», deu a explicar, enquanto a rodopiava em seus aracnídeos dedos. «Quando sentires frio que rouba fôlego, tristeza de fazer fugir, cócega sem inseto ou o sol esvair-se de luz no topo do dia, finca-próximo a lucerna em terra firme e talvez ela sirva a algo.»

Seguem, portanto, algumas considerações.

Primeiro, Arvo não conhecia muito do mundo; mas sabia que não poderia recusar mimo de um háltia, renomados por seus humores por vezes imprevisíveis.

Segundo, a tal lucerna propunha-se a combater muitos malefícios, alguns dos quais bem poderiam se impor em qualquer aventura aventureira de aventuríades.

Por outro lado, e terceiro, “talvez ela sirva a algo” não inspirava muita segurança.

Por esses motivos e apesar de esses motivos, Arvo aceitou e agradeceu pelo presente. No instante em que o bastão foi passado, porém, a expressão no rosto de Chapéu-de-Camundongo assumiu abrupto assombro, confusão ou ambos.

«Agora eu me recordo», pronunciou em voz baixa para si mesmo, seus não-olhos fixados em lugar nenhum. «Lembra-tes de mim? Chapéu-de-Camundongo?», sorriu cava e amplamente. «Mas… o que é isto? É muito mais e além do que eu esperava! A Raposa? A própria ela? O incêndio e o vento!»

Arvo não estava entendendo coisa alguma e, assim, mais por receio do que por sabedoria, escolheu manter-se calado.

Pouco se sabia sobre háltias, exceto que eram como espíritos de coisas, objetos, ideias; criaturas mais de regras e cautelas do que de imprudências — o que tornava aquele momento de desorientação ainda mais inesperado, talvez até de mau agouro.

Enfim o háltia retomou a si mesmo e, ainda um tanto perturbado, pediu desculpas pelo maneirismo, mencionou algo sobre reencontrar o rapaz em outro sonho, despediu-se como se atrasado para o próprio funeral, e desapareceu atrás de um dos quernes.

Agora sozinho, não restou muito a Arvo senão guardar em sua bolsa a lucerna — mais fria do que supunha, algo leve e pesada a um mesmo tempo — e ir para casa.

E foi.

Arvo do pequeno povoado de Poça-Perto dos Altejos: um jovem homem de trinta anos ou pouco mais, de feições amenas ou pouco menos, de convívio e conteúdo modestos, cuja hesitação por vezes era entendida como prudência, cujo maior defeito era raramente servir de assunto para os vizinhos, e agora quase exímio conhecedor de háltias.

Durante o trajeto de volta refletiu sobre o incidente; se outros incidentes como esse o aguardavam no caminho vindouro; se esse detinha um presságio oculto ou maior do que compreendia; se a lucerna serviria de algo. Alimentava secretamente a esperança de não sentir cócega sem inseto.

No fim, estava satisfeito por ter conseguido deixar as suas oferendas aos espíritos das pessoas passadas. Com a mesma serenidade terminou de arrumar a sua mochila de viagem, sem se esquecer de diversos itens cujos usos e adornos havemos de presenciar, amarrou junto uma grossa manta, fez uma refeição sucinta, encaixou firme a porta de sua cabana, e partiu.

Passou pela cabana de Sinivuokko, velha senhora habitualmente afável — exceto quando o seu porco Perkele escapava para comer trufas — e lhe avisou que partiria em viagem de não sabia quantos dias ou semanas, mas que os mantimentos de sua despensa estavam ao dispor e livre uso.

Ao perguntar aonde ele pretendia, o rapaz respondeu que ao Recurvo das Gralhas. Ao insistir por quê, a velha assim ouviu, surpresa mas sem se surpreender: «Ah, tia Sinni. Minha irmã me apostou em uma jogatina de satuma… Quem aposta o próprio irmão?», perguntou Arvo para si e para o mundo, antes de suspirar e seguir: «Ela perdeu a aposta, e agora tenho como promessa uma canção.»

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